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E, quando finalmente terminei de falar, ela deitou minha cabeça em seu colo e disse:

- Ô, preta, eu creio que te compreendo perfeitamente. Sabe outro dia eu estava chorando, chorando muito. Nada estava dando certo e minha vida estava a beira de uma tragédia. Mas, depois pensei: eu desejo tantas coisas, eu espero tantas coisas... Acredito mesmo que esses desmoronamentos na nossa vida vem pra testar o quanto estamos no nosso eixo, o quanto merecemos o que desejamos. Sei que isso é um pouco clichê, mas há tantas coisas no mundo que não entendemos. Tantas forças que desconhecemos. Acredito que essas forças, como tudo na natureza, tem um caráter cíclico. E, gente que deseja coisas bonitas atrai coisas bonitas. Mas, antes de chegar no paraíso a gente precisa mesmo ficar de lama até o pescoço.

Nesse momento eu me levantei, olhei bem fundo nos olhos dela e não sabia mais no que pensar além do fato de que eu estava irreversivelmente apaixonada por aquela mulher. Foi o melhor beijo da minha vida.

Mandala de areia

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Eu vi uma mandala de areia.
Eu vi uma mandala de areia e me perguntei por que dedicar tempo a uma coisa tão efêmera.
Eu vi uma mandala de areia e pensei que, de certa maneira, tudo que fazemos é efêmero.
Eu vi uma mandala de areia e comecei a pensar em como a própria vida também é efêmera.

Eu vi uma mandala de areia e pensei que esse coração partido um dia se cura.
Eu vi uma mandala de areia e pensei que essa dor um dia passa.
Eu vi uma mandala de areia e pensei que essas lágrimas entaladas um dia caem.
Eu vi uma mandala de areia e pensei que esse amor enrolado de corda um dia chega.

Eu vi uma mandala de areia e, pela primeira vez desde aquela nossa infeliz conversa, sorri.

Hoje eu tive meu coração partido

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Eu me apaixonei.
Pela primeira vez em anos eu me apaixonei. Eu me permiti apaixonar.

Ele me contou que é casado.
Ele me contou que a esposa viu as mensagens e que ela não lidou muito bem com elas.
E eu só havia dito queria encontrá-lo de novo.

Eu bebi um tanto mais do que devia.
Na janela do ônibus eu lembrava do meu pai que não falava comigo e da briga com o meu tio há algumas noites...

Os deuses não brincam com quem anseia a grandeza. Eles esmagam quem acha que merece. Uma espécie de teste ou prenda.

Olhei para a janela do ônibus e, por alguns segundos, imaginei o que aconteceria se meu corpo passasse por ela.
No final dos alguns segundos pensei que ainda falta muita coisa para fazer. E creio que sempre faltará.
E, de qualquer sorte, a janela era estreita demais.

Ainda meio bêbada subi a ladeira para minha casa.
Tomei banho. Tomei café. Chorei até dormir.
Depois passa.
Depois passa.
Mas não hoje.
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Então eu me aproximei, no intuito de ajudar aquele homem idoso e disse:
- Senhor, o senhor sabe exatamente o que está fazendo?
Ele parou o que estava fazendo, pôs-se ereto e olhou-me grave:
- Minha filha, ninguém sabe exatamente o que está fazendo.

Fazendo um balanço, acho que estou indo bem

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Hoje no ônibus entrou um moço fedendo a mijo e cachaça. Eu senti nojo dele.
Então eu lembrei da aula de ontem a tarde quando conversamos sobre Manuel Bandeira, Bauman e o refugo humano gerado pelo capitalismo. Lembrei que eu comentei como a desumanização dessas pessoas revela nossa própria desumanização. Eu senti nojo de mim.

Quando desci do ônibus vi algumas pessoas sentadas atrás do hospital esperando a condução. Eles pareciam cansados. Sorri e desejei-lhes uma boa tarde. A moça de longas saias com o terço na mão que vinha logo atrás de mim não desejou boa tarde. Eu fiquei triste por ela. Eu senti orgulho de mim.

Fazendo um balanço, acho que estou indo bem.